O PERFIL DO INDÍGENA NO PROCESSO DE OCUPAÇÃO
Faz-se necessário refletir sobre os fatos que aconteceram nesse processo de expansão.
Inegavelmente foi um movimento em que a violência predominou. Uma vez que os campos ocupados pelos fazendeiros era o mesmo onde viviam os índios, é natural que estes, que viviam da caça não tivessem o conhecimento de posse. Para eles, o gado era um animal como qualquer outro que abatiam para a sua alimentação, enquanto o fazendeiro o tinha como sua propriedade. Resistindo sempre, os índios no entanto recuavam já que eram combatidos com arma de fogo.
Há inúmeros fatos citados por CABRAL (1992) dos quais foram selecionados alguns para ilustrar e dar consciência à civilização maranhense de hoje, que não foram só os africanos que sofreram. Comparado ao tratamento dado aos índios, donos idôneos desta terra maranhense eles foram, os negros; princinpescamente tratados principalmente porque representavam, na época, investimento de capital ou compromisso imperdoável de dívida, quando comprados fiado, o que era mais freqüente do que se possa imaginar.
Eis alguns fatos:
Século XVIII
Durante o século XVIII, quando a frente ocupou e se expandiu pelos altos vales dos rios Parnaíba, Itapecuru, Alpercatas, Balsas, Neves (seu afluente), os conflitos foram intensos.
Os amanajós, cuja tribo etnicamente era mais clara que os timbiras, foram os mais acessíveis quando da ocupação pastoril no Vale do Parnaíba. Fraternalmente, deram o auxílio do seu trabalho pessoal e gratuitamente forneceram mandioca para os ocupantes fazerem farinha, milho, inhame, batatas, macaxeiras, bananas e mais produções de suas roças. Resultado desse encontro, os amanajós foram aldeados próximo ao povoado de São Félix de Balsas. Entretanto, o núcleo não prosperou, o que resultou na evasão, em 1763 de muitos índios para o Piauí. Baseada em informações adquiridas através de Francisco de Paula, Cabral informa que no início do Século XIX, o aldeamento estava em completa decadência e degeneração, resumido a um pouco mais de vinte pessoas.
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CARVALHO (2000) sobre o assunto revela que: os amanajós receberam, em retribuição à sua generosidade, traições escravizações e... desapareceram da face da terra, sem nela deixarem mais que ossos – quando não carbonizados nos incêndios das ocas e a recordação de sua ingênua bondade. Certamente, em represália à maneira como eram tratados, e a perda gradativa da terra, os índios, na minoria das vezes manifestavam grande hostilidade aos vaqueiros e/ou seus patrões. Como exemplo, cita-se a tribo dos Acaroá; referida tribo lá pelos idos de 1760 vivia ao sul do rio Balsas, excursionando por toda a região e até no Piauí. Dessa realidade Cabral transcreve de d’Alecastre: Gueguê e Acaroá foram os que resistiram por mais tempo ao estabelecimento dos portugueses... naturalmente vingativos e turbulentos, mais se tornaram ainda depois de provocados, e a luta com os povoadores durou por muitos anos. Para subjugá-los (os Acaroá), foram realizadas várias bandeiras na segunda metade do Século XVIII. A primeira em 1750, resultou da solicitação dos fazendeiros dos altos Parnaíba e Itapecuru, para pôr fim, segundo eles, às correrias dessas tribos provocando destruição de muitas fazendas, evitando assim enormes prejuízos aos seus proprietários. Em 1758 foi assinado em Caxias um termo da junta (os atuais acordos), no sentido de desenvolver uma guerra defensiva contra os Acaroá e Timbiras. Referido termo justificava-se da necessidade de: defender as vilas e fazendas e a conservação das Freguesias de Gurguéia (Piauí) e de São Bento das Balsas ou Pastos Bons (Maranhão), ameaçadas com as correrias desses índios que já tinham destruído algumas de suas fazendas. Para efetivação do ataque, os fazendeiros de ambas as freguesias tiveram que fornecer quinhentas vacas, vinte e quatro cavalos e duzentos alqueires de farinha, o que é um testemunho da importância da agressão do citado empreendimento. O Estado participou com ferramentas, armas e munições. Como resultado, os Acaroá depois de reduzidos foram aldeados em São Félix de Balsas. Entretanto, há registros de que em 1768 havia na Freguesia de Pastos Bons duas aldeias de índios: dos Amanajós e a de São Félix de Balsas, embrião do atual município deste nome. Em 1771 mais duas campanhas foram empreendidas contra a tribo Acaroá. Pela citação a seguir pode-se avaliar o grau da violência que não poupou nem mesmo a população infantil.
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Duas façanhosas proezas, ou famigeradas ações se viram executadas nesta ocasião pelos grandes Teodosio e Felix do Rego: a primeira, muitas vezes repetidas consistiu na grande piedade que alcançaram as donzelas e meninas que se iam encontrando em um ou outro magote de fugidos, porque vendo estas matar a sangue frio a seus pais, irmãos e parentes que não resistiram nem levaram armas de qualidade alguma para o fazer, se humilhavam batendo as palmas das mãos, que entre eles é o modo mais expressivo de misericórdia, para comoverem ternura; mas nesta mesma ação de humildade digna de maior compaixão se lhes transpassam os peitos até darem o último suspiro, sem lhes valer a fraqueza do sexo e o tenro da idade, a falta de resistência e a carência de culpa e o pedirem humilde e incessantemente misericórdia. Ao se referir sobre os índios Acaroá no Maranhão, aldeados em São Félix de Balsas. SPIX & MARTINS (1976) escreveram: Encontramos apenas um resto desta colônia antigamente importante, segundo a nota do vigário, constava de umas 120 pessoas e mesmo estas nem todas de origem, sem misturas. Certas doenças especialmente as bexigas haviam dado cabo de muitos, outros já desde muito tinham regressado aos seus velhos retiros. O aspecto tristonho dos índios, que vagavam aqui em abstrata inércia, a sujidade e desordem das pobres chocas, assim com a falta de uma direção conveniente confiada agora a um soldado dado ao vício da embriaguez, reforçaram a nossa convicção de que deve considerar rara exceção uma feliz tentativa de colonizar indígenas
Esse quadro de declínio neutralizou totalmente e força e a honestidade dos Acaroá. Outras tribos contatadas no século XVIII pelos criadores de gado foram a dos Kapiekrã ou Canela e a dos Sakamekrã, resistentes e guerrilheiros aqueles, habitantes do vale do rio Alpercatas e estes habitantes da mata. Referidas tribos atacavam fazendas, povoados, assaltavam os viajantes que se dirigiam entre Pastos Bons e Caxias, dificultando assim a expansão da pecuária. CABRAL (apud RIBEIRO, 2002) enumera trinta e cinco fazendas de gado destruídas por essas tribos.
Já em outros tempos foram povoados seus campos em Pastos Bons, os melhores para criação de gado e ali com mais de sessenta estabelecimentos deste gênero formaram esta Ribeira, uma das mais populosas do distrito; porém, os índios Sakamekrã... e outros que com estes se confinam (Kapiekrã), tornaram a vertê-los em desertos solidões destruindo a maior parte dos ditos estabelecimentos e indo gradualmente tanto em aumento essa devastação que já hoje na dita Ribeira muitos poucos conhecem (existem) e esses mesmos quase exauridos.
Século XIX
Os conflitos, as contendas e todas as suas conseqüências, embora desastrosas, colaboraram para que houvesse, a partir do início do século XIX uma trégua e um certo ambiente de paz entre índios e criadores de gado. Dentre os fatores que contribuíram para essa “paz”, destaca-se
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a quebra da resistência dos índios pelas grandes perdas humanas socioculturais e econômicas sofridas. Não se pode excluir, no entanto; o fato de que já amadurecidos, criadores de gado e indígenas passaram a se entender, a se conhecer melhor, a usar e cobiçar as ferramentas usadas pelos brancos, além daqueles que serviram como instrumento de paz. Eram os interlocutores entre os dois grupos divergentes. Elementos que antigos prisioneiros de guerra de ambos os lados haviam escapado e serviram de intermediários por vivenciarem melhor o comportamento e as razões do “ter”, de ambos os grupos: criadores e índios. Um acontecimento que facilitou o entendimento dos pecuaristas com os Kapiekrã é que estes, precisando revidar uma derrota que tinham sofrido dos Sakamekrã, resolveram fazer aliança com os brancos para derrotar o seu inimigo, restabelecendo assim relações pacíficas com os criadores de gado. Disso resultou o aldeamento dos Kapiekrã na fazenda Buritizinho, enquanto o auxílio prometido pelo Estado nunca aconteceu, o que resultou no abandono dos índios que, famintos, passaram a roubar gado nas fazendas, ressurgindo assim atritos. Sob o pretexto de livrarem-se definitivamente dos Sakamekrã, atraíram os Kapiekrã para Caxias, onde havia uma epidemia de varíola e ali, deixaram-nos expostos à doença, prisões e espancamentos. Parte deles, ao tentar voltarem para seu lugar de origem, foram dizimados, outros, mesmo doentes escaparam resultando disso a proliferação da varíola em todo o alto sertão maranhense, patologia até então desconhecida naquela área. CABRAL (apud RIBEIRO, 2002) relata com detalhe esse episódio: Nada porém tão repreensível como a liberação de introduzir entre aqueles miseráveis o contágio das bexigas, da qual a vila de Caxias e suas circunvizinhanças estavam naquele tempo empestadas: se é, como dizem que fora de propósito para destruí-los, contando com a sua impropriedade para resistir a tamanho mal, o que não acho crível; porém, seja como for, o certo é que os gentios viram-se feridos dele, sem ter remédio algum que lhe valessem. Finalmente atormentados por toda forma, avivando-lhe cada vez mais a lembrança da traição com que os iludiram, chamando-os ali para atormentá-los e não podendo sofrer por mais tempo a fome que continuava a devorá-los, espalhavam-se desesperados fugindo para os montes donde haviam descido; porém estavam desse meio apartados e era assaz a desgraça que entre si levavam para que lá pudessem chegar muitos deles. Assim mesmo indefesos, consternados e fugitivos foram mandados espingardear pela retaguarda no lugar São José, a 14 léguas de Caxias, ficando por esses campos bastante mortos que, insepulcros, serviram de pastos às feras daqueles matos e aos urubus ou corvos do Brasil. Quanto aos Sakamekrã, a mesma autora registra que também enganados por expedições que sob a promessa de paz e fornecer-lhes ferramentas convenceram-lhes a abandonar a 31
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área onde habitavam protegidos pela mata e, num confronto a campo aberto os derrotaram abatendo-os e vendendo-os em leilão em Caxias. Os detalhes desse gesto covarde são minuciosamente relatados pela autora citada. Mas quão diferente não foi deste acolhimento protelado, aquele que receberam na crueldade com que a sangue frio, foram ali mesmo mortos, alguns atraiçoadamente, nas prisões com que imediatamente aguilhoram outros, e na infame partilha que se fez das suas famílias, em tom de escravos perpétuos, chegando a ser arrematados em leilão público na praça da vila de Caxias e levados aos descaroçadores de algodão daquele distrito, onde amarrados como macaco ao sepo, foram asperamente castigados para adiantar as tarefas ao serviço consignado pelos seus ilegítimos senhores, no entanto que talvez sofriam fomes intoleráveis. Outros confrontos foram registrados no sul e sudoeste do Estado, entre as tribos que habitavam a margem oriental dos rios Tocantins, Farinha (afluente daquele) e Grajaú. Como exemplo citam-se:
•Piocobgez – habitavam o vale de várzea do rio Grajaú e que opunham grande resistência aos criadores, chegando a destruir fazendas e até mesmo povoados, como Chapada em 1814;
•Krahó, aldeia com mais de três mil índios e que habitavam onde foi fundado São Pedro de Alcântara; eram acessíveis e de relacionamento pacífico. Sobre esse assunto registra CABRAL (1992:131)
Prezava-se de bom guerreiro e com justiça, pois assaz o experimentamos nas expedições em que ajudou contra as nações circunvizinhas. Não tinha ambição alguma e era humano, entregando-nos generosamente todos os prisioneiros que havia e muitas vezes aconteceu que quebrasse a cabeça a seus soldados porque se opunham a estes sentimentos. As tribos que escaparam da violência dos criadores de gado, sofreram o mesmo processo por parte dos bandeirantes, que os aprisionavam para serem leiloados como escravos no Pará. Citando Francisco de Paula, CABRAL (1992) registrou: Certa expedição que foi aos índios da tribo Augutgê, em 1816, soube reduzi-los com aquelas já referidas promessas; porém, logo que eles se entregaram, prendeu-os e escravizou-os; queixando-se então, humildemente, o seu maioral daquela infame traição que não merecia, a humana resposta que pôde obter foi uma ordem que se deu para levá-lo dentre os seus a um bosque vizinho, onde muito a sangue frio foi despedaçado pelos cruéis algozes que o conduziram: o resto dessa tribo que não coube nas canoas do Pará foi vendido a vários comissionários volantes que o foram revendilhar no Piauí.
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Dessa forma, procedeu-se ao sacrifício do nativo na ocupação dos sertões maranhenses, participando no palco desse espaço, na conquista e no sofrimento, a exemplo do que acontecia com o negro no litoral, na baixada e nos vales úmidos. Tal como o negro, a resistência do índio a tal dominação, foi primordial para a sobrevivência, embora ainda bastante sacrificada de algumas, e o que é mais importante é que o espírito de luta dessas duas minorias étnicas nos dá uma lição da necessidade de conviver com as diferenças de cada cultura e os diferentes, que, no entanto, foram importantes na construção do Brasil e particularmente do Maranhão.
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